Nos dias 4 e 5 de maio de 2012 a Profa. Hilma Khoury esteve em Palmas/TO, participando da X Jornada de Estudos e Pesquisas sobre Envelhecimento Humano na Amazônia - X JEPEHA, cujo tema central era Resiliência, ocasião em que proferiu a Palestra "A criação de condições para vivenciar a velhice de forma prazerosa"(veja abaixo). Esta jornada contou com a participação maciça de idosos, tanto da Universidade da Terceira Idade - UNITERCI, da UFPA, como da Universidade da Maturidade - UMA, da UFT.
PALESTRA – X JEPEHA –
PALMAS/TO
04/05/2012 –
Sexta-feira – 9 às 10 horas
Dirigida
especialmente aos muitos idosos presentes
A CRIAÇÃO DE
CONDIÇÕES PARA VIVENCIAR A VELHICE DE FORMA PRAZEROSA
Palestrante: Profa.
Dra. Hilma Khoury[1]
Eu
vou começar com uma pergunta: É possível viver a velhice de forma prazerosa?
Prestem
bem atenção a esta pergunta. Eu não perguntei se é possível viver muito e sem
qualquer problema. Eu estou perguntando se é possível viver bem a velhice, de
forma prazerosa, feliz?
Talvez
alguns digam que não. Outros, digam que sim. E outros, ainda, digam depende!
Eu
vou ficar com esta última. Depende! Mas, do que depende? Ou de quem depende?
Poderíamos
argumentar que depende de muitas situações que estão fora do nosso controle ou
sobre as quais temos pouco controle. Por exemplo, condições de saúde; situação econômico-financeira;
problemas familiares. Se isto fosse verdade, somente um número muito pequeno de
idosos seria feliz. Os ricos, saudáveis e sem problemas na família. Isto é uma
ilusão!
Embora
velhice não seja sinônimo de doença, dificilmente um idoso está livre de
problemas de saúde devido ao natural desgaste biológico. Tanto é assim que o
conceito de velhice saudável, hoje adotado pelas políticas públicas de saúde à
pessoa idosa, não é ausência de doenças, mas, capacidade de permanecer
independente e autônomo pelo maior tempo possível. A situação econômico-financeira da maioria
dos idosos em nosso país não é das melhores em função do valor pago às
aposentadorias e pensões. Problemas familiares, uns maiores, outros menores,
quase todos temos. E ainda há o fato de que a velhice é a última fase da vida.
De
fato, a velhice é uma fase delicada da vida, etapa de muitas mudanças,
especialmente físicas, fisiológicas e de papéis sociais. Mudanças essas que
atingem a todos aqueles que ultrapassam certo patamar cronológico, geralmente
entre 60 e 70 anos.
No
entanto, muitos idosos parecem viver bem a velhice. Ativos, participativos,
produtivos.
Trago
à lembrança alguns personagens de nossa história contemporânea. O arquiteto
Oscar Niemeyer, 104 anos e ainda trabalhando, construindo projetos; Cora
Coralina, escritora goiana, que viveu 95 anos e publicou seu primeiro livro aos
75; Bibi Ferreira, atriz, diretora, cantora e compositora, que comemorou seu
aniversário de 90 anos com um show em teatro do Rio de Janeiro; Sebastião
Vasconcelos, ator de televisão, cinema e teatro, 85 anos, ainda fazendo novelas;
João Carlos Martins, pianista e maestro, 72 anos, ainda tocando, apesar de
vários problemas que afetaram suas mãos. A lista poderia continuar com outras
pessoas não tão famosas e que cada um de vocês deve conhecer. Aqui
mesmo neste auditório, eu vou chamar a Ana Maria Torres (levanta Ana, por
favor) que quando tinha quarenta e poucos anos foi atropelada por um ônibus,
quase perdeu a perna, andou de cadeira de rodas, de muleta e depois de bengala.
Agora, já idosa, ela faz parte da família UNITERCI, veio de ônibus de Belém
para Palmas e está participando desta Jornada.
O que faz com que muitos idosos vivam bem a
sua velhice, alguns até idade bem avançada? Qual a mágica? Qual o segredo?
Evidentemente
que esta façanha não depende de um único fator. Um conjunto de fatores
contribui para isto. Mas há um fator essencial que impulsiona a vitalidade, a
motivação, o prazer e a felicidade de viver, apesar de algumas adversidades
inerentes à velhice.
Que
fator é esse? Diria que esse é o fator psicológico ou psicossocial. É melhor
falar no plural - fatores psicossociais – porque são muitos. Fatores
psicossociais dizem respeito ao nosso mundo subjetivo: são as nossas crenças, percepções,
avaliações, julgamentos e atribuições. Referem-se à nossa maneira de pensar
sobre nós mesmos, sobre os fatos que nos acontecem e sobre a vida; à nossa
maneira de ver as coisas, que por sua vez, afeta as nossas emoções e,
conseqüentemente, o nosso comportamento. Por exemplo, pensemos em duas pessoas com
problemas que dificultam sua locomoção. Uma pode encarar isto como uma desgraça.
A outra pode encarar como um desafio. A primeira, a que vê como uma desgraça será
dominada por sentimentos de tristeza; de impotência; muito provavelmente não
fará nada para resolver ou minimizar os efeitos dessa situação e ficará com sua
vida bastante restrita. A segunda, a que vê como um desafio, se encherá de
coragem e motivação e muito provavelmente se esforçará para encontrar uma saída.
Pessoas
que conseguem enxergar uma saída ou algumas saídas para os problemas, aquela
capacidade de enxergar luz no fim do túnel; pessoas que confiam em sua própria
capacidade para dar conta das coisas, aquela confiança no próprio taco, como se
diz, e que nós, psicólogos chamamos de auto-eficácia; pessoas que vêem
alternativas entre a perfeição e a imperfeição, que têm a habilidade de
enxergar um ponto intermediário entre o 8 e o 80, essas pessoas enfrentam
melhor as dificuldades, se adaptam
melhor a mudanças e conseguem ser mais felizes.
Por
isso os psicólogos que estudam o desenvolvimento no ciclo de vida (perspectiva life span) dizem que o desenvolvimento
bem-sucedido e, obviamente, também o envelhecimento bem-sucedido, estão ligados
à plasticidade comportamental, ou seja, a capacidade de ser flexível, de
amoldar-se às situações, enfim, à capacidade de adaptação.
Talvez
o conjunto dessas características que mencionamos e de tantos outros fatores
psicossociais, constitua o que chamamos de Resiliência, a habilidade para
superar ou lidar bem com situações difíceis, e que é o tema desta Jornada!
Respondendo
a pergunta que fiz no começo desta palestra (é possível viver a velhice de
forma prazerosa?) poderíamos dizer que depende do idoso ser mais ou menos
resiliente.
Mas,
o que é preciso para alguém ser Resiliente? Será que resiliência é uma
característica que alguém tem ou não tem? Ou é uma habilidade possível de ser
desenvolvida?
Eu
diria que é algo resultante da relação entre a pessoa, a situação e o meio
social em que vive. A pessoa, o
indivíduo, precisa ter habilidade para enfrentar a situação e as pessoas com
quem ele convive, o seu meio social mais restrito (família, amigos, grupos)
precisam oferecer apoio. Felizmente, é
possível desenvolver resiliência!
Podemos
criar condições que auxiliem os idosos a viver a velhice de forma prazerosa.
Entre estas condições incluo, especialmente:
1)
A
realização de programas como a UMA aqui na federal do Tocantins, a UNITERCI lá
na federal do Pará, e outros como as UNATIs, além de muitos Grupos de
Convivência, que contribuem efetivamente para a inclusão social e o exercício
da cidadania;
2)
E
os projetos, em diversas áreas profissionais, que visam favorecer a auto-estima;
desenvolver habilidades psicossociais; descobrir talentos; incentivar e
instrumentalizar os idosos para o planejamento e a realização de metas de curto
e médio prazos.
Em
Belém, no âmbito da psicologia, vimos desenvolvendo há alguns anos um projeto
de extensão denominado “Grupos de Desenvolvimento Psicossocial para a terceira
idade” que se constitui em um programa de oficinas planejadas que oferecemos
aos idosos, visando desenvolver atitudes e habilidades psicossociais que ajudem
a viver a velhice com qualidade.
Vou
encerrar com uma frase de Cora Coralina que tem muito a ver com o tema desta
Jornada e com tudo o que dissemos nesta Palestra:
“É
que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais
esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu
coração do que medo na minha cabeça“ (Cora Coralina).
[1] Hilma Tereza Tôrres Khoury. Psicóloga,
Doutora em Psicologia, Professora Associada na Universidade Federal do Pará.

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